O medo de trocar o certo pelo desconhecido: por que resistimos a novos destinos de pesca?

Quando a fidelidade vira zona de conforto e o novo assusta mais do que deveria

Por Laís Vanessa - 19/02/2026 em Notícias / Turismo - atualizado em 19/02/2026 as 10:53

Existe um tipo muito específico de medo que acompanha o pescador viajante. Não é o medo da água cheia, nem do peixe manhoso, nem da mudança de clima. É o medo silencioso de trocar o certo pelo desconhecido.


Quando a gente encontra um destino que funciona, uma pousada organizada, um guia que entende o ritmo do grupo, um lugar onde já sabemos onde o peixe costuma entrar, algo se cria ali. Não é só hábito. É vínculo. A pousada deixa de ser apenas um endereço e passa a fazer parte da história pessoal daquele pescador. Voltar todos os anos vira quase um ritual. Um reencontro.


E isso é bonito. Mas, às vezes, esse conforto vira resistência.



Foto: Pedro Hertz.


Já vivi isso de perto. Em mais de uma gravação, em mais de uma temporada, encontrei exatamente o mesmo grupo na mesma pousada. Pescadores que acompanham o programa, que vivem a pesca intensamente. Em conversa, perguntei se já tinham conhecido outros destinos, outras pousadas, outros rios. A resposta vinha quase sempre com orgulho: “Não. Sou fiel a essa pousada.”


E está tudo certo. Muitas dessas pousadas são realmente excelentes. Mas quando a pergunta seguia: “e por que não experimentar outro lugar, outra cidade, outro ambiente?”. O silêncio vinha primeiro. Depois, a sinceridade: “tenho medo de não ser tão bom. De não ter o mesmo atendimento. De perder a pescaria.”


Esse medo é mais comum do que parece. Porque, no fundo, não é só sobre peixe. É sobre arrependimento. Sobre investir tempo, dinheiro e expectativa em algo que pode não corresponder. Sobre sair da zona onde tudo já é conhecido.



Foto: Pedro Hertz.


O problema é quando esse medo começa a limitar a própria experiência de ser pescador.


Experimentar novos destinos não diminui a trajetória de ninguém. Pelo contrário: amplia. Um pescador que conhece diferentes rios, espécies, estruturas e dinâmicas desenvolve mais leitura de água, mais adaptabilidade, mais técnica e, muitas vezes, mais prazer.


Claro que variar não significa ir às cegas. Antes de trocar ou alternar uma pousada, alguns pontos são fundamentais: estrutura compatível com o perfil do grupo, logística de acesso, espécies-alvo, época correta da pescaria, proposta do destino e, principalmente, o tipo de experiência que se busca naquela viagem.


Foto: Laís Vanessa.


Não se trata de abandonar o lugar onde tudo já funciona. Trata-se de entender que é possível alternar. Um ano no destino conhecido, no outro, uma nova cidade. Um novo rio. Um novo desafio.

Porque a verdade é simples e inevitável: você só descobre se for.


Algumas experiências vão surpreender positivamente. Outras talvez não entreguem tudo o que prometem. Mas até isso faz parte do repertório. A pesca esportiva, assim como a viagem, também é feita de comparação, aprendizado e história pra contar.


Evoluir como pescador não é apenas refinar equipamentos ou buscar peixes maiores. É, muitas vezes, ter coragem de sair da margem segura e lançar a linha em águas novas.
No fim das contas, o desconhecido assusta.


Mas, ficar sempre no mesmo lugar também pode nos impedir de descobrir o quanto a pesca e o mundo ainda têm a oferecer. 



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