Eu tirei alguns dias de folga com uma ideia muito clara na cabeça. Aquelas imagens que a gente cria antes da viagem: descanso, paisagem bonita, sensação de “era exatamente isso que eu precisava”. A expectativa era uma praia específica. O plano era simples. Chegar e aproveitar.
Mas nem sempre o destino corresponde àquilo que a gente imagina.
Cheguei. Olhei. Caminhei. Observei. E percebi que aquela praia não era tudo o que eu tinha criado na minha cabeça. Não era ruim, só não era pra mim. Não combinava com o meu estilo de viagem, com o meu ritmo, com o jeito que eu gosto de viver um lugar.
E aí vem a encruzilhada que toda viagem apresenta em silêncio: reclamar ou se adaptar.

Foto: Pedro Hertz
Ficar preso na frustração é fácil. Difícil é mudar a lente. Porque quando a gente entra na energia do “esse lugar é ruim”, nada mais presta. O dia pesa, o humor cai, a experiência se perde. E eu já estava ali. Já tinha percorrido quilômetros para chegar. Não fazia sentido desperdiçar aquele tempo.
Então resolvi fazer o que toda viagem pede quando foge do controle: abrir o leque.
Se não era aquela praia, o que existia em volta? O que mais aquele lugar tinha para oferecer? Que caminhos não estavam no meu roteiro, mas estavam logo ali, esperando para serem explorados?
Foi assim que comecei a conhecer outras praias ao redor. Sem expectativa. Sem comparação. Só presença. E, curiosamente, foram essas praias “fora do plano” que mais me agradaram. Eram diferentes. Tinham outra energia. Combinavam muito mais com o meu estilo de viajar.

Foto: Lais Vanessa
O destino original deixou de ser o foco. Virou ponto de partida.
Isso acontece muito mais do que a gente admite. A gente planeja uma viagem inteira em cima de uma expectativa criada por fotos, vídeos, relatos rápidos das redes sociais. Tudo parece perfeito no enquadramento certo. Mas o turismo real não cabe num post quadrado.
A ilusão do turismo perfeito mora aí: na crença de que tudo precisa ser exatamente como a gente imaginou para valer a pena.
Só que viagem não é sobre controle. É sobre leitura de cenário. É sobre adaptação. É sobre entender que, às vezes, o lugar não está errado, ele só não conversa com quem a gente é naquele momento da vida.

Foto: Pedro Hertz
E isso não transforma a experiência em algo ruim. Pelo contrário. Transforma em aprendizado.
Porque agora eu sei exatamente que tipo de praia combina comigo. Sei o que não faz mais sentido para o meu perfil. Sei o que eu busco quando viajo. E isso só foi possível porque eu vivi, observei e explorei.
Esse raciocínio vale também para outros tipos de turismo. Na pesca, por exemplo, isso acontece o tempo todo. Pescadores chegam a uma pousada nova, criam uma expectativa enorme e, às vezes, percebem que aquele formato não é exatamente o que imaginavam. Isso não significa que a experiência precisa ser frustrante.
Cabe, nesse momento, aproveitar o que o lugar oferece, conhecer o entorno, viver o que está disponível. Porque mesmo quando não é amor à primeira vista, ainda é vivência. Ainda é repertório. Ainda é bagagem.

Foto: Pedro Hertz
Não existe destino ruim. Existe destino que não combina com o teu estilo.
E só descobre isso quem vai. Quem se permite explorar. Quem aceita sair do roteiro sem transformar isso em derrota.
Aliás, muitas vezes, são justamente essas mudanças de rota que tornam a viagem melhor do que o esperado. Um caminho alternativo. Uma parada inesperada. Um lugar que não estava nos planos, mas que entrega exatamente o que você precisava, mesmo sem saber.
Viajar também é um exercício de flexibilidade. É aprender a lidar com o imprevisto sem perder o encantamento. É entender que a experiência se constrói no percurso, não apenas no ponto final.
E talvez seja por isso que algumas viagens marcam tanto. Não porque deram tudo certo, mas porque ensinaram a gente a olhar diferente.
No fim das contas, o melhor destino nem sempre é aquele que a gente escolhe.
Às vezes, é o que escolhe a gente.
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Laís Vanessa
- 05/02/2026 em