A saudade que a viagem deixa antes mesmo de acabar

Algumas viagens começam a doer antes mesmo de acabar.

Por Laís Vanessa - 12/02/2026 em Notícias / Turismo - atualizado em 12/02/2026 as 11:15

É uma dor silenciosa, que não grita, mas aperta. Ela chega de mansinho, normalmente quando a data do retorno começa a se aproximar. Mesmo estando no lugar. Mesmo vivendo o agora. Talvez justamente por isso.


Eu já senti essa saudade muitas vezes. Em viagens de trabalho, em gravações, em dias de folga que eram só meus. Lugares que eu cheguei sem grandes expectativas e que, de alguma forma, me atravessaram. Pela energia. Pelas pessoas. Pelo jeito simples e profundo, como tudo parecia fazer sentido ali.


Foto: Pedro Hertz.


Quando a viagem não é trabalho, eu confesso: não gosto muito da ideia de já ir com data de volta definida. Sempre que posso, compro só a passagem de ida. A volta eu deixo em aberto, para decidir estando lá. Mais uma semana? Alguns dias a mais? Ou já é hora de ir? Depende da agenda, do trabalho, da vida… mas também do coração.


É um pouco arriscado, eu sei. O preço do aéreo, a logística, o planejamento. Mas tem destinos que pedem isso. Lugares que não combinam com prazo fechado. Lugares que dão uma nostalgia antecipada, como se a despedida começasse antes mesmo de você arrumar a mala.


Com o tempo, viajando para gravar com mais frequência, eu precisei aprender a lidar com isso. No início, cada despedida doía. Cada pousada, cada equipe, cada lugar deixava um nó na garganta. Até que um colega de trabalho, muito pé no chão, me disse algo que eu nunca esqueci:


“Te acostuma. Tu vai voltar aqui talvez só no ano que vem. Vai passar por muitos lugares. Não dá pra sofrer assim em todos.”



Foto: Pedro Hertz.


Ele tinha razão. Não era sobre não sentir. Era sobre aprender a lidar com o sentimento.
Hoje, eu já consigo ir e vir com mais equilíbrio. Já conheço o ritmo das viagens, os ciclos, os retornos. A dor já não é tão crua. Mas ela não desapareceu. Porque há lugares, especialmente quando visitados pela primeira vez, que tocam num lugar fundo demais pra passar ilesos.
E é aí que a saudade começa antes da partida.


Ela surge quando você percebe que está plenamente presente. Quando o tempo parece passar rápido demais. Quando você olha em volta e pensa, quase sem querer: “Eu queria ficar mais.”
Depois que a viagem termina, vem outra fase. O retorno. E ele nunca é imediato, mesmo quando o corpo já está em casa. Demora alguns dias até a gente voltar pra si mesma. Porque quem volta não é exatamente quem foi. 


Viajar cria versões nossas. Personalidades que emergem em determinados lugares, em determinados encontros, em determinados silêncios. E quando a gente retorna à rotina, ao cotidiano, ao conhecido, ainda carrega fragmentos dessa versão que nasceu lá fora.


Foto: Pedro Hertz.


É um período de adaptação. Um turbilhão emocional. Uma espécie de metamorfose discreta. Aos poucos, aquela versão vai se integrando à nova. Porque a viagem transforma. Sempre transforma. Mesmo quando é curta. Mesmo quando parece simples.


Talvez essa seja uma das verdades menos faladas sobre viajar: não é só sobre ir. É sobre voltar diferente. É sobre aceitar a impermanência das experiências. Sobre entender que nada é fixo, nem os lugares, nem a gente.


Por isso algumas viagens doem. Não porque acabam, mas porque deixam marcas. Porque tocam fundo. Porque não ficam na superfície.


Viajar é um mergulho. E quem mergulha de verdade nunca volta igual.


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