Resíduo do tratamento de esgoto pode ser aproveitado na agricultura

Técnica de compostagem adotada em Piracicaba (SP) busca transformar lodo em fertilizante orgânico e reduzir envio de material para aterro sanitário.

Por Joyce Heurich - 02/11/2020 em Notícias / Geral - atualizado em 03/11/2020 as 14:59

Uma iniciativa colocada em prática no município de Piracicaba, interior de São Paulo, pretende transformar o resíduo do tratamento de esgoto da cidade em fertilizante orgânico para a agricultura. O objetivo é zerar ou, pelo menos, diminuir o volume de lodo enviado ao aterro sanitário da região - aproximadamente 1,2 mil toneladas por mês. A solução, que vem sendo testada desde o fim de setembro, passa pela compostagem. A técnica estimula a decomposição de materiais orgânicos para gerar um composto rico em nutrientes para o solo. O processo leva cerca de 60 dias e também aproveita folhas e galhos de podas feitas na cidade.

“O processo de compostagem é milenar. Para lodo de esgoto e lixo urbano é muito usado na Europa e nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, tem uma experiência em Jundiaí [cidade paulista]”, cita a engenheira agrônoma Edna Bertoncini, pesquisadora da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

O projeto, que segue até julho de 2021, foi viabilizado a partir de um acordo entre governo estadual,
Universidade de São Paulo (USP) e concessionária Mirante, responsável pela gestão do sistema de esgotamento sanitário de Piracicaba. A intenção do grupo é aprovar o composto junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), mas, para isso, o produto final deve atender a uma série de critérios. Cumprir essas exigências é o grande desafio.

Por isso, diariamente, pesquisadores têm acompanhado a evolução do processo, buscando identificar as melhores formas de revolvimento e irrigação das pilhas de compostagem. Para garantir a qualidade do fertilizante, o material tem passado por análises constantes em laboratório. “A partir do momento em que a gente chegar a uma tecnologia adequada, qual a melhor forma de irrigação, eles
[a concessionária] têm que continuar o processo”, explica Edna.

 

Benefícios ambientais e econômicos

 

Uma das metas do novo Marco Legal do Saneamento Básico, sancionado em julho de 2020, é que, até o fim de 2033, pelo menos 90% da população esteja sendo atendida com coleta e tratamento de esgoto no país. Segundo o governo federal, atualmente, esse acesso está restrito a apenas metade da população brasileira.

Para o professor Paulo Pavinato, que atua na
Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz” da USP, a alternativa adotada em Piracicaba está alinhada a essa legislação, já que aposta em uma solução sustentável para um resíduo que deve se tornar cada vez mais volumoso no país caso a meta do governo seja alcançada. “Nossa expectativa é que esse processo seja comprovadamente viável para produção agrícola e que possa ser aplicado em qualquer cidade do país. Havendo interesse de outras cidades e concessionárias, é plenamente expansível para outras regiões”, garante Paulo.

A reciclagem do resíduo orgânico também traz benefícios de ordem econômica. Conforme a concessionária, se a iniciativa alcançar os resultados esperados, o custo com transporte e destinação do lodo ao aterro sanitário da cidade vizinha, que hoje representa 12% dos custos operacionais, cairá para zero. Uma vez aprovado pelo Mapa, o fertilizante pode, inclusive, ser comercializado.

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