O Brasil é reconhecido mundialmente pela variedade impressionante de peixes de água doce, mas existe um grupo em específico revela o tamanho da força e complexidade dos rios brasileiros: os bagres.
Com centenas de espécies distribuídas desde as águas profundas da Amazônia até as corredeiras do Centro-Oeste e os igarapés mais remotos do país, o território nacional concentra a maior diversidade de bagres do planeta. Cada ambiente abriga comportamentos, tamanhos e adaptações únicas que ajudam a explicar o protagonismo desses peixes.
O biólogo, Flávio Lima explica que o motivo dessa riqueza tão expressiva se deve à vários motivos, exclusivos da região amazônica.
"Primeiro a própria região, que possui a maior bacia hidrográfica do mundo, e quanto maior a área maior, maior será a quantidade de espécies de qualquer grupo. Outro motivo se deve ao fato da Amazônia estar localizada dentro de uma região equatorial tropical ", disse.
Foto: Fish TV.
Essa diversidade não é apenas uma questão de quantidade, mas de história evolutiva. Em cada bioma, eles desenvolveram características específicas para lidar com diferentes condições de profundidade, luminosidade, predadores e fontes de alimento. É essa combinação de ambientes extremos e adaptações surpreendentes que faz do Brasil, especialmente na Amazônia, uma referência global quando se trata da espécie.
Os bagres formam um dos grupos mais relevantes dos rios brasileiros. Suas espécies variam de peixes de poucos centímetros a verdadeiros gigantes de mais de dois metros de comprimento, como a piraíba, por exemplo, considerada um dos maiores bagres do mundo.
Com olhos reduzidos, pele resistente e longos barbilhões sensoriais, esses peixes colonizam desde águas claras e rasas até canais profundos e turvos, onde a luz quase não alcança.
Foto: Fish TV.
Essas adaptações impressionantes explicam porquê a América do Sul concentra mais da metade de todas as espécies de bagres conhecidas pela ciência. Rios extensos, regimes de cheia e seca, sedimentos variados e ambientes hiperdinâmicos criaram condições ideais para uma diversificação ao longo dos anos, favorecendo a existência de dezenas de espécies em um mesmo trecho de rio.
A espécie também desenvolve um papel extremamente importante para o equilíbrio das cadeias ecológicas nas regiões em que habita.
“A piraíba, por exemplo, é famosa por ficar na calha do rio predando cardumes migratórios, é um peixe especialista em predar esses cardumes de peixes migratórios de escamas. Já o jaú tem uma outra estratégia, ele fica em lugares fundos dos rios, lugares de corredeira cachoeira, e por ser um bagre grande, mas sedentário, ele captura os peixes que estão se movendo rio acima" explicou Flávio.
Os bagres e a pesca esportiva

Foto: Fish TV.
A riqueza dos bagres vai além da diversidade. Há espécies adaptadas ao fundo dos rios, outras que percorrem a coluna d’água em busca de alimento, bagres capazes de viver em ambientes de luminosidade quase zero e até aqueles dotados de sentidos extremamente refinados, aptos a detectar vibrações, movimentos e, em alguns casos, até sinais elétricos na água.
No dia a dia da pesca esportiva, essas diferenças ficam ainda mais evidentes. É o que reforça o pescador esportivo Salomão Rossy, que lembra que o comportamento dos bagres é completamente distinto do dos peixes de escama.
“O bagre é um peixe de couro, ele tem essa diferença básica dos peixes de escama, que além de possuir o couro possui a escama. E quase nenhum dos bagres enxerga, então ele come e sente através dos seus barbilhões e através do seu sistema sensorial que ficam na frente e na lateral do peixe”.
Desse modo, a espécie exige leitura de ambiente, escolha precisa de pontos, variações de técnica e muito conhecimento do seu comportamento. São essas nuances que desafiam os pescadores e revelam o quanto o comportamento dos bagres é complexo e fascinante.
Ameaças à biodiversidade
Foto: Fish TV.
Toda essa riqueza, porém, está sob crescente pressão. E as populações dos grandes bagres, que levam muitos anos para atingir a maturidade reprodutiva, são as primeiras a sentir os impactos da ação humana.
Os motivos que causam maior impacto na vida e desenvolvimento desses peixes são variados. O avanço das hidrelétricas é um deles, a ação altera os ciclos naturais, fragmenta ecossistemas e bloqueia rotas migratórias essenciais para espécies que percorrem longas distâncias.
Assim como o garimpo, que avança em várias regiões da Amazônia, que acaba intensificando o assoreamento e poluindo as águas com mercúrio, modificando trechos inteiros de rios, tornando ambientes, que antes produtivos, em áreas degradadas. Já o desmatamento compromete a qualidade da água, aumenta a temperatura dos rios e modifica os locais de alimentação e abrigo de inúmeras espécies de bagres.
Preservar os bagres é preservar nossos rios

Foto: Fish TV.
Das águas profundas da Amazônia às corredeiras do Centro-Oeste, os bagres contam histórias de adaptação, força e equilíbrio ecológico. São espécies fundamentais para manter a dinâmica dos ecossistemas, controlar populações de outros peixes e indicar a qualidade ambiental dos rios.
Preservar esses gigantes significa preservar a identidade dos nossos ecossistemas aquáticos que sustentam milhões de pessoas. E a pesca esportiva tem um papel fundamental nessa questão.
"Os bagres que são peixes de grandes matrizes, que precisam ser preservadas, quando as pessoas matam os grandes peixes, vão ficando apenas os medianos, então, esse DNA vai ficando mediano. Por isso, temos essa preocupação de soltar as grandes matrizes, de valorizar essas espécies através da pesca esportiva, uma atividade que gera emprego e renda para uma cadeia produtiva muito abrangente. Então, a atividade é um viés fundamental para o desenvolvimento econômico do nosso país e para valorização e conservação das espécies do nosso país" afirmou Salomão.
Foto: Fish TV.
Portanto, proteger essa diversidade é assegurar que todas essas espécies continuem vivas para as próximas gerações. A conservação dos bagres não é apenas um compromisso ecológico, mas também um compromisso social e cultural.
Esses peixes sustentam cadeias alimentares inteiras, movimentam economias locais e impulsionam a pesca esportiva responsável, que cresce a cada ano no país.
Garantir o futuro dos bagres significa manter vivos os rios que moldam o Brasil e preservar um patrimônio natural que não pode ser substituído. É um esforço coletivo, da ciência, dos pescadores e das comunidades, para que essa riqueza continue a existir, em toda a sua complexidade e beleza.
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