83% das arraias e tubarões comercializados no Brasil estão ameaçados de extinção

Pesquisa aponta que o termo genérico "cação" é frequentemente usado para descrever essas carnes, o que mascara os verdadeiros números

Por Thayná Souza - 16/04/2024 em Notícias / Meio Ambiente

    Uma pesquisa recente, publicada este mês na revista americana Biological Conservation, trouxe à luz uma preocupação alarmante sobre a situação das arraias e tubarões no Brasil. Dos 203 tipos de raias e tubarões existentes no país, 64 estão sendo vendidos no mercado comercial.

A realidade é preocupante: 83% das espécies comercializadas estão ameaçadas de extinção, enquanto 12% estão quase ameaçadas, de acordo com a Lista Vermelha da IUCN, organização americana de preservação à natureza.


Foto: Jornal da Unesp

O estudo, intitulado Fifteen years of elasmobranchs trade unveiled by DNA tools: Lessons for enhanced monitoring and conservation actions (em tradução livre: Quinze anos de comércio de elasmobrânquios revelados por ferramentas de DNA: Lições para um melhor monitoramento e ações de conservação), liderado pela pesquisadora Marcela Alvarenga, identificou 36 espécies de tubarões e 28 de raias disponíveis para comercialização no Brasil, com base em 35 artigos publicados entre 2008 e 2023.


Rodrigo Domingues, pesquisador do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coautor do artigo, destaca os desafios enfrentados para estudar a pesca desses animais, como a falta de programas de monitoramento, a baixa regulamentação da atividade e os altos custos de pesquisa. A proibição de algumas espécies também gerou tensões entre pesquisadores e pescadores, dificultando o acesso a informações sobre as capturas e sua quantidade. 


Foto: Marcela Alvarenga

Embora existam regulamentações para a comercialização de animais ameaçados, o artigo mostra que essas espécies continuam sendo vendidas no Brasil. O uso do termo genérico "cação" e a prática de retirar a cabeça e as nadadeiras dos animais para o transporte dificultam a identificação das espécies, levando à venda indevida de animais ameaçados.

O estudo também apontou erros de rotulagem em produtos marinhos, com 85 raias sendo vendidas como tubarões e 22 tubarões vendidos como raias. Além disso, espécies de tubarões e raias foram comercializadas como peixe-viola, salmão ou corvina, inclusive em instituições educacionais e restaurantes. 


Foto: Folhapress

O Brasil, apesar de ser signatário de acordos internacionais de conservação, tem um histórico contraditório na importação e exportação de produtos marinhos. Entre 2009 e 2019, o país foi o maior importador de carne de tubarão, recebendo 149.484 toneladas. Em 2021, o Brasil tornou-se o terceiro maior exportador de carne de raia para a Coreia do Sul, principal consumidora mundial dessa espécie.

Diante desses dados alarmantes, o Brasil corre o risco de entrar em uma espiral de pesca predatória, colocando em risco irreversível espécies que já estão criticamente ameaçadas de extinção, como Atlantoraja castelnaui, Carcharhinus porosus, Carcharias taurus, entre outras listadas pelo estudo.


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