Migrações vitais de peixes de água doce entram em colapso e acendem alerta global

Estudo aponta forte declínio de espécies migratórias no mundo; especialista destaca importância do Brasil nesse cenário

Por Alice Mesquita - 17/04/2026 em Notícias / Meio Ambiente - atualizado em 17/04/2026 as 13:59

Os peixes migratórios de água doce, responsáveis por ciclos naturais fundamentais dos rios e base importante da pesca em diversas regiões do planeta, estão entre os animais silvestres mais ameaçados da atualidade.


O alerta foi reforçado por estudos apresentados durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), realizada no final de março, em Campo Grande (MS). O relatório aponta uma forte queda nas populações dessas espécies e a necessidade urgente da cooperação internacional para evitar perdas ainda maiores.


A nova avaliação global identificou 325 espécies migratórias de peixes de água doce que dependem de ações coordenadas entre países para sobreviver. Isso ocorre porque muitas delas percorrem longas distâncias e atravessam fronteiras ao longo de grandes bacias hidrográficas, utilizando diferentes trechos dos rios para reprodução, alimentação e crescimento.


Entre as regiões com maior número de espécies listadas estão a Ásia, com 205 registros, seguida da América do Sul, com 55 espécies. África, Europa e América do Norte também aparecem no levantamento.


Bacias prioritárias incluem Amazônia e Bacia do Prata



O estudo destaca que algumas das áreas mais estratégicas para a conservação desses peixes estão na América do Sul. Entre elas aparecem a Bacia Amazônica e a Bacia do Prata, formada pelos rios Paraná, Paraguai e Uruguai.


Na avaliação da bióloga e ictióloga Lisiane Hahn, que esteve presente na COP15, o território brasileiro ocupa posição central dentro desse cenário, tanto pela extensão geográfica quanto pela presença de importantes sistemas hídricos.


"O Brasil tem um papel de destaque, já que ocupa quase metade do território da América do Sul. Em uma escala global, o maior número de espécies listadas nessa avaliação concentra-se nas bacias amazônica e do prata, ambas com grande parte de suas áreas dentro do território nacional.” disse.


A especialista também ressaltou que o número de espécies presentes no país evidencia a responsabilidade brasileira na conservação desses estoques.

“Das 55 espécies migratórias transfronteiriças, identificadas para a América do Sul, 45 ocorrem no Brasil, o que reforça o papel central do país na conservação desses peixes.” disse.


Além da biodiversidade, Lisiane destacou que o país reúne condições importantes para liderar iniciativas conjuntas de proteção em rios compartilhados com países vizinhos.


“Além disso, o Brasil ocupa uma posição estratégica na articulação das medidas de proteção, ele reúne capacidade técnica, institucional e diplomática que são capacidades fundamentais para a gestão e manejo dessas espécies entre esses diferentes países" afirmou.


Colapso já impacta a pesca

A redução das populações de peixes migratórios já traz reflexos diretos para a pesca e acende um alerta para diferentes regiões do planeta. Espécies de grande porte, tradicionalmente valorizadas por pescadores e comunidades ribeirinhas, vêm sofrendo pressão crescente em diversos sistemas hídricos.


Além da importância ecológica, esses peixes também têm peso econômico e social, sustentando cadeias produtivas, abastecimento alimentar e modos de vida ligados aos rios.


Esse cenário já afeta a pesca no Brasil e tende a se intensificar caso medidas rápidas e efetivas não sejam adotadas. Muitas espécies migradoras de grande porte possuem alto valor econômico e papel estratégico para a segurança alimentar em diferentes partes do mundo.


Em escala internacional, a pesca continental no rio Mekong, na Ásia, movimenta cerca de 11 bilhões de dólares por ano. Já na Amazônia, essas espécies sustentam tanto a pesca de subsistência quanto a atividade comercial, gerando mais de 430 milhões de dólares anuais e contribuindo para a alimentação de aproximadamente 47 milhões de pessoas.

Os números reforçam que a conservação desses peixes não envolve apenas biodiversidade, mas também economia, emprego e segurança alimentar.


Por que essas espécies estão ameaçadas?


Foto: Magda Ehlers / Pexels

O principal fator apontado pelos especialistas é a perda de conectividade dos rios. Barragens, represamentos e outras estruturas impedem que os peixes completem suas rotas migratórias entre áreas de desova, alimentação e crescimento.


E, mesmo quando conseguem ultrapassar esses obstáculos, o desgaste físico pode comprometer a reprodução. Na descida dos rios, adultos, juvenis e larvas também ficam sujeitos a lesões e mortalidade.


Além disso, outros impactos se somam, como a poluição da água, sobrepesca, aumento da temperatura dos rios, retirada excessiva de água, canalização de cursos d’água, destruição de áreas alagáveis usadas como berçários naturais e mudanças climáticas.


Quando esses fatores atuam ao mesmo tempo, o risco cresce de forma ainda mais acelerada.
A redução desses peixes afeta muito mais do que a pesca. Muitas espécies migratórias ocupam o topo da cadeia alimentar e ajudam a controlar populações de outros organismos aquáticos, quando desaparecem, todo o equilíbrio ecológico pode ser alterado.


Há também espécies frugívoras, que se alimentam de frutos e dispersam sementes ao longo dos rios. Um exemplo citado por Lisiane é a piracanjuba, conhecida por colaborar com a regeneração das matas ciliares durante seus deslocamentos.


Ou seja, proteger esses peixes também significa proteger os rios e a vegetação ao redor deles.

Entre as medidas consideradas prioritárias estão: acriação de áreas protegidas em rios, tributários e locais de reprodução, recuperação da conectividade dos cursos d’água, remoção de barragens obsoletas, fortalecimento do licenciamento ambiental com base científica, monitoramento internacional entre países vizinhos, regras de pesca integradas em bacias compartilhadas, gestão dos rios em escala de bacia hidrográfica, e não por trechos isolados.


Segundo especialistas, espécies migratórias de água doce dependem quase exclusivamente da rede fluvial para se deslocar. Quando esse caminho é interrompido, elas deixam de alcançar áreas essenciais para completar o ciclo de vida.


Um tema que exige atenção imediata

Dados globais mostram que as populações de peixes migratórios de água doce caíram cerca de 81% desde 1970. E entre os chamados mega peixes, espécies migradoras de grande porte, entre eles os bagres, peixes de escamas sul americanos e até enguias e salmões, a redução chega a níveis ainda mais alarmantes, atingindo o total de 94%.


O cenário coloca em evidência uma crise muitas vezes menos visível do que outros problemas ambientais, mas com consequências profundas para a biodiversidade e para a pesca.


Para países como o Brasil, dono de algumas das maiores bacias hidrográficas do planeta, a discussão vai muito além da conservação. Trata-se de proteger recursos naturais estratégicos, garantir alimento, manter atividades pesqueiras e preservar a vida que depende dos rios.


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