A presença do peixe-leão na plataforma continental do Amazonas acendeu um sinal de alerta entre pesquisadores brasileiros.
Considerada uma das espécies invasoras mais preocupantes do planeta, o peixe agora pode estar avançando para uma das regiões marinhas mais sensíveis e menos exploradas do país: a foz do Rio Amazonas.
O alerta surgiu após pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia identificarem uma larva de peixe-leão com apenas 3,9 milímetros durante um estudo realizado na região.

Foto: UFRA
Segundo a bióloga e pesquisadora da UFRA, Paula Campos, o estudo publicado em 2026 representa um marco importante para a ciência brasileira. Até então, não existiam registros mais precisos que comprovassem a reprodução da espécie em águas amazônicas.
“Esse estudo é um marco porque, até então, não existiam dados científicos sobre a reprodução da espécie na região. Apenas indivíduos adultos já haviam sido registrados anteriormente na bacia da Foz do Rio Amazonas”, destacou a pesquisadora.
A descoberta aconteceu durante o projeto franco-brasileiro Amazon Mix, que realizou coletas em diferentes pontos da plataforma continental amazônica. De acordo com o biólogo Igor Hamoy, a identificação da espécie exigiu uma análise genética detalhada até chegar na conclusão.
“A gente encontrou uma pequena larva e não conseguia explicar a que espécie ela pertencia pelo ponto de vista morfológico. Diante disso, aplicamos a técnica de DNA Barcoding e comparamos com dados internacionais, concluindo então que se tratava do peixe leão”, explicou.
Nativo dos oceanos Índico e Pacífico, o peixe-leão ficou conhecido mundialmente pelos impactos causados após sua invasão no Caribe. Sem predadores naturais no Oceano Atlântico, a espécie conseguiu se espalhar rapidamente, afetando populações de peixes nativos e alterando ecossistemas inteiros.
Com comportamento altamente predador, o peixe-leão possui grande capacidade de adaptação e consegue se alimentar de praticamente tudo o que encontra pela frente, incluindo peixes pequenos, crustáceos e organismos fundamentais para o equilíbrio ecológico dos recifes.
Durante muito tempo, pesquisadores acreditavam que a pluma de água doce formada pelo Rio Amazonas funcionava como uma espécie de barreira natural contra a entrada de organismos marinhos que dependem de águas mais salgadas. Isso porque a baixa salinidade criava condições desfavoráveis para espécies como o peixe-leão.
Mas o registro da larva mostra justamente o contrário: a espécie conseguiu superar essa barreira natural, reforçando sua capacidade de adaptação e expansão.
E o tamanho reduzido da larva foi um dos fatores que mais chamou atenção dos pesquisadores. Segundo o estudo, um organismo com apenas 3,9 milímetros dificilmente conseguiria percorrer sozinho grandes distâncias pelas correntes oceânicas.
Isso reforça a hipótese de que o peixe-leão possa já estar estabelecido na região amazônica e se reproduzindo próximo à área onde a larva foi encontrada.
O avanço da espécie preocupa principalmente pelo risco ao Grande Sistema Recifal Amazônico, um ambiente ainda pouco conhecido pela ciência, mas considerado fundamental para diversas espécies da região Norte, como por exemplo os pargos, que dependem desses recifes para alimentação e abrigo.
Com isso, também aumenta a preocupação em relação aos impactos sobre os recifes amazônicos e as espécies que dependem desses ambientes para sobreviver. Para o discente e pesquisador Lucas Corrêa, que também fez parte do estudo, o registro da larva reforça um cenário preocupante para a biodiversidade da região.
“Os hábitos do peixe-leão são diretamente ligados aos recifes de corais e a descoberta da larva nessa região indica ainda mais que ela está bem estabelecida no local, já prejudicando as espécies que residem ali”, afirmou.
Os reflexos também podem atingir diretamente os pescadores da região. Sem predadores naturais no Atlântico, o peixe-leão consegue se espalhar rapidamente e competir por alimento com espécies nativas importantes para a pesca comercial e artesanal.
“Em relação à pesca na região, toda a cadeia produtiva vai sofrer, mas principalmente os pescadores artesanais. As espécies nativas vão competir diretamente por alimento com o peixe-leão, que não possui predadores naturais aqui. Isso pode prejudicar os estoques pesqueiros”, destacou Lucas.
Diante desse cenário, o monitoramento da espécie e o avanço de novos estudos serão fundamentais para entender até onde o peixe-leão já conseguiu avançar nas águas amazônicas e quais podem ser os impactos dessa invasão para os ecossistemas brasileiros.
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