Projeto Meros do Brasil lança e-book para auxiliar pescadores esportivos: conheça

“Guia de boas práticas de pesque e solte” é um e-book digital, voltado para a contextualização das pescarias que interagem com o mero, maior espécie de garoupa do Oceano Atlântico.

Por Marcelo Telles - 15/06/2022 em Notícias / Meio Ambiente - atualizado em 15/06/2022 as 17:03

Sem dúvida nenhuma, a pesca esportiva é um dos esportes que mais crescem no Brasil e no mundo. Com a sua prática cada vez mais conhecida e estudada, o esporte faz parte do dia a dia de diversos praticantes.


Porém, antes mesmo de qualquer isca ser lançada nas águas, a pesca esportiva tem o seu foco, fortemente, na preservação da natureza. Alinhado à essa ideia, existe um projeto nascido em 2002, que está presente em nove estados e 37 municípios em território nacional.


As fotos a seguir foram retiradas do próprio e-book. 


O Projeto Meros do Brasil


O Meros do Brasil, que surgiu em Santa Catarina, realiza ações de pesquisas científicas, educação ambiental e comunicação. As atividades estão alinhadas com a Década do Oceano, com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), e buscam envolver toda a sociedade.


Mas antes de qualquer coisa, é preciso conhecer os meros (Epinephelus itajara). Os meros são peixes, a maior espécie de garoupa do Oceano Atlântico. Devido à destruição de seus habitats, sobrepesca e poluição, sofreram um declínio muito significativo nos últimos 65 anos.


Considerando toda a área de distribuição da espécie no Brasil, do Amapá à Santa Catarina, a redução das suas populações foi superior a 80%. O que significa que há décadas morrem muito mais meros do que nascem, e por isso esses peixes estão criticamente ameaçados, correndo sério risco de desaparecer.




O principal objetivo do projeto é formar uma rede de pessoas e instituições comprometidas com a preservação e recuperação dos meros e dos ambientes marinhos e costeiros brasileiros. Desde então, em duas décadas de trabalho, o projeto tem oferecido os principais subsídios para a recuperação das populações dessa espécie na costa brasileira.


Estudos de biologia da conservação e populacional, poluição marinha, genética, valoração ambiental e aquacultura têm contribuído com a criação de políticas públicas direcionadas para a espécie e os ambientes marinho-costeiros.


Entre esses, está a implantação da moratória nacional de pesca, que teve participação fundamental dos pesquisadores do Meros, da sociedade e das instituições governamentais responsáveis, sendo pioneira para uma espécie de peixe marinho no Brasil.  O projeto é patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.


Trabalhos do projeto por estado


Cobrindo aproximadamente 1.500 quilômetros da costa brasileira, por meio da atuação em rede, as ações do Projeto levam em conta as particularidades de cada região e são executadas de forma colaborativa entre as equipes de todos os estados.


Em Santa Catarina e no Paraná, o trabalho com telemetria acústica fornece os dados que ajudam a estabelecer, gradativamente, o acompanhamento dos padrões de ocorrência, deslocamento e comportamento da espécie.


Já em São Paulo, a pesquisa com a reprodução dos meros em cativeiro é inédita no mundo e, no Rio de Janeiro, o espaço do Projeto Meros dentro do Aquário Marinho do Rio (AquaRio), recebe, anualmente, mais de um milhão de pessoas e dá ao público a oportunidade de conhecer o universo marinho e dos meros, por meio de um espaço interativo e inclusivo. É no Rio, também, que em 2019 foi criada a Rede de Conservação Águas da Guanabara (REDAGUA), uma rede que uniu os Projetos Coral Vivo, Guapiaçu, Meros do Brasil e UÇÁ, e a Petrobras pela conservação da Baía de Guanabara.


No Espírito Santo, amostras de meros coletadas de forma não letal em todo o país são analisadas, e informações genéticas obtidas respondem questões fundamentais relacionadas à saúde das populações de meros do nosso litoral. Este estado também tem sido reportado como o maior berçário a céu aberto de meros no Brasil.


Em Pernambuco, a atuação dentro de áreas protegidas possibilita entender as características necessárias para a ocorrência dos meros que partirão da costa para habitar naufrágios e ilhas distantes como o arquipélago de Fernando de Noronha.




Na Bahia, a arte encontra a educação e promove a autonomia, a participação da sociedade no processo de engajamento pela conservação e mantém viva e presente a cultura brasileira. No nordeste também, em Alagoas, as recentes expedições em locais inexplorados e o uso de tecnologias de monitoramento remotas, permitem registros inéditos de meros e de espécies marinhas.


E, finalmente, no estado do Pará, o coração da conexão da floresta com o mar, análises de isótopos estáveis buscam compreender a importância dos meros e de outras espécies, inclusive a nossa, nessa teia da vida em que todos dependemos uns dos outros para existir.


Além disso, o trabalho de campo aproxima as comunidades pesqueiras da informação e da importância da conservação dos meros para que seja possível a abundância dos meios de vida para essa e para as futuras gerações.


Sem contar as nove instituições que possibilitam o trabalho do Projeto em cada uma dessas localidades ( Universidade Federal do Pará, Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Federal de Alagoas, Grupo Cultural Arte Manha, Universidade Federal do Espírito Santo, Instituto Meros do Brasil, Instituto de Pesca do Estado de São Paulo, Museu de História Natural do Capão da Imbuia e o Instituto Comar), contando com mais de 50 instituições parceiras que auxiliam nas atividades realizadas, e, em 2019 passou a integrar a Rede Biomar para conservação marinha junto a outros quatro projetos que são referências na pesquisa e preservação do oceano pelo país.


E-book para a pesca esportiva


Conversamos com o biólogo, gerente de gestão ambiental do Meros do Brasil, Matheus Oliveira Freitas, que nos explicou tudo sobre o guia e sobre o trabalho realizado pelo projeto. Matheus comentou sobre essas duas décadas de trabalho e como os estudos de biologia de conservação e populacional, poluição marinha, genética, valoração ambiental e aquacultura têm contribuído com a criação de políticas públicas direcionadas à conservação da espécie e dos ambientes marinho-costeiros em que ela habita.


“Entre esses, está a implantação da moratória nacional de pesca, que teve participação fundamental dos pesquisadores do Meros, da sociedade e das instituições governamentais responsáveis e foi pioneira para uma espécie de peixe marinho no Brasil”, comenta.


O gerente de gestão ambiental ainda diz que, além da pesquisa, as atividades de Educação Ambiental que permeiam o projeto em seus nove pontos de atuação na costa brasileira, permitem levar a um grande público, as descobertas do Projeto, bem como a importância de se conservar essa espécie e os ambientes marinhos-costeiros.


No âmbito de políticas públicas, o principal resultado do projeto, de acordo com Matheus, é a moratória de pesca da espécie, estabelecida, inicialmente, em 2002, ano do início do Projeto Meros, e renovada em 2007, 2012 e 2015, ampliando assim, sua área de abrangência e também as atividades de pesquisa, conservação e educação ambiental.




Sobre o “guia de boas práticas de pesque e solte”, de acordo com o biólogo, a busca por um meio ambiente equilibrado é essencial para que uma atividade como a pesca esportiva possa ser desenvolvida. Difundir a conservação de espécies bandeira, como o mero, e também a conservação marinha e costeira é um dos objetivos do Projeto.


“O segmento da pesca esportiva é uma atividade que gera muitas divisas, tanto no Brasil como em outros países. Levar informação de qualidade para públicos diversos tem sido um dos pilares de nossas ações de comunicação. O conhecimento é fortalecimento e só preserva quem conhece. Desta forma, quanto mais atores estiveram envolvidos e engajados nas temática de preservação ambiental, atalhos podem ser criados, para reduzir a escalada de degradação ambiental que enfrentamos. Mais além, a atividade de pesca esportiva tem potencial para gerar dados para a pesquisa de muitas espécies, e o Meros do Brasil, vêm recentemente estudando e buscando implementar algumas dessas potencialidades".


Sobre o “Guia de boas práticas de pesque e solte”, Matheus explica que é um um e-book digital, voltado para a contextualização das pescarias que interagem com o mero, onde trazem um histórico das interações com o mero e como os pescadores podem realizar suas pescarias de forma mais adequada, reduzindo a possibilidade de estresse e morte dos peixes após a soltura.


No capítulo 3, por exemplo, é abordado, especificamente, as boas práticas que devem ser levadas em consideração na atividade de pesque e solte, tendo como foco os meros, mas podendo ser aplicada para todas as espécies que interagem com a pesca amadora.


“Utilizamos as experiências de mais de 20 anos do Projeto Meros do Brasil e Projeto Robalo, além de literatura científica para dar subsídio às nossas sugestões. Para facilitar o entendimento, a cada passo de indicação de boa prática, temos links no e-book que nos levam a vídeos explicativos”, comenta Matheus.




Um outro ponto de atenção é como qualquer pescador amador pode contribuir com a obtenção de dados científicos, a conhecida Ciência Cidadã. O guia se encerra com o dispositivo de redução de mortalidade, desenvolvido por diversos setores da pesca.


Em todo o guia, a pesca esportiva é abordada de forma participativa, ressaltando como a Ciência Cidadã é uma ferramenta de contribuição da sociedade na coleta de informações de pesca e de biologia das espécies. Alguns exemplos desta troca de experiências são apresentados, tendo o mero como exemplo, onde uma boa fotografia, aliada à data e localização, pode fornecer informações importantes sobre crescimento e movimentação dos meros.


Além disso, Matheus diz que o uso de uma linguagem acessível, com vídeos para sugerir boas práticas no pesque e solte, trazem destaque. Os responsáveis pelo Projeto Meros do Brasil viram a necessidade da criação desse e-book a partir de um aumento exponencial dos adeptos da pesca esportiva e amadora. A partir daí, foi percebido a necessidade de trazer informações de orientação, em linguagem clara e direta, sobre procedimentos básicos de manejo adequado dos exemplares capturados e soltos pela atividade.


Para a criação do guia, vários especialistas contribuíram. Entre eles, um muito conhecido da Fish TV. Biólogo e apresentador do programa Biopesca da Fish TV, Lawrence Ikeda é responsável pelo prefácio do guia, baseado na literatura científica especializada e nas experiências do Projeto. Dentre os autores estão diversos pesquisadores doutores, especialistas em peixes marinhos, estuarinos e continentais.


“Acreditamos que o diálogo entre setores é essencial. O cidadão/pescador comum pode ser um grande aliado na proteção dos peixes e dos ecossistemas, mas para isso, precisa estar cada vez mais capacitado e consciente de suas atividades. Desde o cuidado com seu lixo, destinando de forma adequada, passando pelo conhecimento das leis e normativas existentes na pesca, até ações básicas para a proteção de matrizes e espécies ameaçadas”, diz Matheus.


O biólogo finaliza comentando que a união e a troca de conhecimentos e experiências entre a população e pesquisadores é essencial para que se atinja os objetivos da proteção ambiental.


O “Guia de boas práticas de pesque e solte” está disponível gratuitamente para download no site do Projeto Meros do Brasil e você pode acessar-lo clicando aqui.


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