Você já deve ter se deparado com aquelas imagens impressionantes de rios ou represas completamente cobertos por um "tapete verde".
De longe, a paisagem ganha contornos que lembram um gramado bonito e vibrante. Mas, na verdade, essa beleza aparente esconde um perigo ambiental silencioso e letal: o processo de eutrofização.
Longe de ser um sinal de saúde da natureza, essa "explosão verde" é capaz de asfixiar a vida aquática, causar impactos severos na pesca e tornar a água altamente tóxica, chegando ao extremo de forçar a interrupção do abastecimento público em cidades inteiras.
Mas o que, afinal, alimenta esse fenômeno e como uma série de erros humanos nos trouxe até aqui? Para entender os perigos reais por trás desse tapete, nossa reportagem foi a fundo no assunto e conversou com especialistas em ecologia aquática.
A origem do problema: a "Eutrofização Cultural"
Foto: Arquivo Pessoal / Dra. Ana Cristina Petry.
Para quem vê de cima, a superfície tomada não surge do nada. O tapete é formado por plantas aquáticas (as macrófitas) ou por microalgas (o fitoplâncton) e outros microrganismos que realizam fotossíntese. Na grande maioria das vezes, essa proliferação desenfreada é o que a ciência chama de "eutrofização cultural".
O fenômeno ocorre quando há um excesso de nutrientes na água, principalmente fósforo e nitrogênio.
Essa carga extra vem diretamente de falhas estruturais da sociedade: esgoto não tratado, escoamento de dejetos da pecuária e uso excessivo de fertilizantes agrícolas. Toda essa poluição funciona como um adubo potente nas águas, fazendo com que as plantas e algas se multipliquem em uma velocidade assustadora.
A Dra. Ana Cristina Petry, Bióloga e Especialista em Ecologia de Peixes de Água Doce da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que o problema tomou proporções globais:
"Eutrofização cultural é um jargão que tem tomado conta, especialmente nos últimos anos, do linguajar técnico. E ele indica, nada mais nada menos, do que aquele processo de eutrofização na água, que tem como principal causa as atividades humanas. E não é apenas no Brasil que essa eutrofização cultural está dominando os ambientes aquáticos, mas isso acontece em escala planetária também. Os corpos hídricos, com cada vez mais nutrientes dissolvidos em suas águas, têm promovido um aumento exponencial principalmente desses microrganismos capazes de realizar a fotossíntese."
Além da poluição urbana e rural, outra forma comum de enriquecimento da água ocorre durante a criação de novas represas. Quando uma grande área de floresta é inundada sem o manejo adequado, a vegetação submersa apodrece, liberando uma carga gigante de nutrientes de uma só vez.
O Dr. Jean Vitule, Biólogo e Especialista em Ecologia Aquática da Universidade Federal do Paraná (UFPR), detalha esse processo:
"Quando se forma um reservatório ou um lago artificial, é comum se ter um processo de proliferação de macrófitas, essas plantas submersas ou principalmente as plantas flutuantes, por conta de ter uma grande quantidade de matéria orgânica nessa área que foi inundada. Por exemplo, é recomendado, por órgãos ambientais em geral, retirar as vegetações, principalmente arbustivas, que vão apodrecer rapidamente e gerar um excesso de nutrientes. Isso aí vai favorecer esse crescimento de macrófitas na superfície. Por isso que geralmente é pedido que haja uma supressão quando se vai construir um reservatório."
O efeito cascata e a asfixia debaixo d'água
Foto: Arquivo Pessoal / Dra. Ana Cristina Petry.
Se na superfície o verde domina, o maior drama acontece debaixo d'água. O tapete denso bloqueia a entrada da luz solar e impede a troca de gases com a atmosfera. Sem luz, o fitoplâncton e as plantas submersas não conseguem fazer fotossíntese e morrem. Inicia-se então um efeito cascata mortal.
Quando toda essa massa vegetal apodrece no fundo do rio, as bactérias responsáveis pela decomposição entram em ação e consomem o pouco oxigênio que restou na água, um processo conhecido como anoxia. Sem oxigênio, peixes e invertebrados, vitais para a cadeia alimentar e para a pesca, morrem asfixiados.
"Após esse tapete verde em cima, quando a gente tem uma dominância muito grande de algas, a luz solar não vai conseguir entrar e nem a movimentação da água superficial" , alerta o Dr. Jean Vitule.
"Mesmo que vente muito, não vai ter ondulação pro oxigênio superficial se misturar na coluna d’água e enriquecer toda a água de um lago. A luz vai gerar fotossíntese por algas. Sem a luz, as algas que estão debaixo e plantas submersas não vão conseguir respirar. Com isso, vai causar um empobrecimento dessa biota... Além disso, o pior é que tudo isso que vai morrendo vai acumulando no fundo e na coluna d’água e vai gerando uma proliferação de bactérias que consomem o oxigênio."
A Dra. Ana Cristina Petry complementa sobre essa disputa desleal pela sobrevivência debaixo d'água:
"Quando esses microrganismos começam a entrar em senescência [fase de envelhecimento e morte]... o que começa a prevalecer dentro do ambiente aquático é o processo de respiração, o processo de decomposição de todo esse material orgânico. E aí, entra numa verdadeira competição por demandas de oxigênio dissolvido na água, que é um gás essencial para peixes, crustáceos e todos os outros organismos aeróbios. As demandas de oxigênio começam a ficar baixíssimas e sim, a gente tem problemas bem grandes de ambientes anóxicos causados pela morte dessas cianobactérias."
Toxinas, sabor de barro e o perigo à saúde humana
Foto: Arquivo Pessoal / Dra. Ana Cristina Petry.
A degradação não para na falta de oxigênio. A gigantesca “sopa” de nutrientes faz explodir a população de cianobactérias (bactérias capazes de realizar fotossíntese). Elas são as grandes responsáveis por deixar a água com um tom de verde intenso.
O problema é que as cianobactérias produzem a geosmina, uma substância que confere à água um cheiro desagradável e gosto forte de barro. Pior ainda são as cianotoxinas produzidas por elas: substâncias extremamente perigosas que se acumulam nos peixes e representam um risco gravíssimo à saúde humana.
Beber dessa água contaminada pode causar doenças severas e, dependendo das concentrações, ser letal. É por isso que, em casos extremos de floração, prefeituras e concessionárias precisam interromper totalmente o abastecimento público, tentando evitar uma tragédia sanitária.
Mesmo as microalgas, quando morrem, formam massas gelatinosas que ficam boiando, o que acaba favorecendo espécies invasoras e indesejadas que desequilibram ainda mais o ecossistema.
A Dra. Ana exemplifica o caso com uma espécie específica que tem se beneficiado desse caos:
"Nós podemos observar que essa massa de algas em estado de senescência (...) foram utilizadas como recurso alimentar por uma espécie de peixe invasora e totalmente repelida pela população, o pacu-CD. Um peixe que praticamente só tem espinhos e atinge tamanhos muito pequenos. Ele parece que está se beneficiando da proliferação dessas cianofíceas. Esse também é um resultado bastante inédito, que nos mostra que uma espécie invasora pode estar se favorecendo dessa perturbação ambiental."
A falsa solução de empurrar o problema
Foto: Gerada por IA / Google Gemini.
Diante da represa sufocada, a atitude mais instintiva de alguns gestores é simplesmente abrir as comportas para deixar a planta e os microrganismos descerem o rio. A ciência e a legislação, no entanto, são claras: empurrar o problema rio abaixo não é manejo ambiental, é desastre.
Como muitas dessas macrófitas são espécies invasoras, sem predadores naturais, elas acabam colonizando rapidamente áreas onde antes não existiam.
"Ao abrir comportas, se há um tapete muito adensado, obviamente vai haver um turbinamento abaixo e vai devolver esse tapete", adverte o Dr. Jean Vitule.
"Vai gerar o carreamento dela e de propágulos, que são pedaços e fragmentos dessas plantas vivas. Qualquer parte dela ou uma nova folha pode gerar um novo banco de macrófitas. E com isso vai gerar um problema sempre a jusante, para baixo do rio. Esse problema vai sair de cima e vai para baixo de uma forma até pior, muitas vezes."
Qual é a saída? Monitoramento, saneamento e matas ciliares
Foto: Arquivo Pessoal / Dra. Ana Cristina Petry.
O manejo correto para situações críticas exige o uso de boias de contenção e máquinas recolhedoras que retirem fisicamente o material da água, sem espalhá-lo. Contudo, para reverter a eutrofização a longo prazo, as soluções passam diretamente pela responsabilidade humana e políticas de Estado.
É indispensável investir em saneamento básico real, com o tratamento de 100% do esgoto urbano, evitando que os rios continuem sendo usados como fossas a céu aberto. Outro passo fundamental é a restauração das matas ciliares, a faixa de floresta nas margens dos rios que foi desmatada irregularmente ao longo de décadas.
O Dr. Jean Vitule ressalta a importância dessas florestas ribeirinhas:
"A perda de mata ciliar é drástica no fenômeno de eutrofização. A vegetação em torno de rios e lagos serve como se fosse um cílio pros nossos olhos. Qualquer nutriente, qualquer adubo que for cair na água, ela vai funcionar como uma espécie de filtro para acumular antes que chegue na água. Tanto fisicamente, quanto biologicamente, com a absorção dos nutrientes pela mata ciliar."
Além da prevenção, agir antes da crise se instalar requer acompanhamento rigoroso por parte do poder público, incluindo comitês de bacia, prefeituras e Ministério Público.
"Monitoramentos regulares nesse tipo de sistemas são imprescindíveis", pontua a Dra. Ana Petry. "Em situações de eutrofização cultural, esse monitoramento precisa ser semanal, ou mais de uma vez na semana, pois essas cianobactérias começam a produzir toxinas em períodos muito rápidos de tempo. O monitoramento e o envolvimento de todos os tomadores de decisão é uma questão de segurança hídrica e segurança da nossa sociedade."
O preço da falta de ação
Foto: Arquivo Pessoal / Dra. Ana Cristina Petry.
A água gera energia, mata a sede, sustenta a pesca esportiva e é o palco do ecoturismo. As disputas por água de qualidade já são uma realidade dura em várias partes do planeta, e a natureza tem mostrado, de forma implacável, os seus limites.
Como vimos, o problema exige ação imediata e conjunta. Cobrar políticas efetivas de saneamento, apoiar a restauração florestal, estabelecer programas de monitoramento de ponta e fiscalizar as matas ciliares deixou de ser pauta exclusiva de ambientalistas e virou uma urgência de saúde pública e de sobrevivência.
O alerta definitivo está dado pelas nossas águas. Sem conter a poluição na fonte e sem restaurar a proteção natural das margens, os cartões-postais de rios e lagos limpos darão cada vez mais espaço para esse verde que engana os olhos.
Um verde que, no fundo, significa o triste e silencioso fim das nossas águas. Ou cuidamos de nossos rios agora, ou o prejuízo logo poderá ser irreversível para todos nós.
Clique aqui e leia o material no site da Associação de Limnologia sobre o processo de eutrofização.
Foto de capa: Arquivo Pessoal / Dra. Ana Cristina Petry.
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