ESPÉCIES INVASORAS EM RIOS BRASILEIROS ACENDEM ALERTA ENTRE CIENTISTAS

A presença do Jaguar e do Tambaqui fora de suas áreas de ocorrência tem motivado estudos sobre os impactos nos ecossistemas aquáticos

Por Alice Mesquita - 13/07/2026 em Notícias / Meio Ambiente

As bacias hidrográficas brasileiras são famosas mundialmente pela sua biodiversidade e por serem um dos palcos das pescarias esportivas mais emocionantes do planeta.


No entanto, nos últimos anos, a chegada de espécies fora de seus habitats originais tem chamado a atenção de cientistas e acendido um sinal de alerta para a dinâmica da vida aquática em determinadas regiões.


No cenário atual, duas espécies têm se destacado nesse debate devido à sua capacidade de adaptação fora de suas bacias de origem: o Jaguar (Parachromis managuensis) e o Tambaqui (Colossoma macropomum).


O Avanço do Jaguar


Foto: Wikimedia Commons

O jaguar, peixe originário da América Central, mais especificamente do Lago Manágua, na Nicarágua, tem se espalhado por diversos corpos d'água longe de sua região natural.

Embora sua agressividade e força atraiam a atenção dos pescadores em um primeiro momento, o comportamento desse predador gera debates sobre o seu impacto no ambiente local.


“Quando uma espécie exótica como essa se estabelece, ela causa impactos à medida que começa a competir com espécies nativas por espaço e alimento. O jaguar é resistente, muito predador e se alimenta de espécies de peixes menores, principalmente as piabas, que são fundamentais nos ecossistemas de água doce”, explicou o biólogo Telton Ramos em entrevista à Fish TV.


O principal desafio da presença do jaguar está na predação contínua de piabas e outros pequenos peixes que servem de base alimentar para diversos animais. A redução dessas populações pode desestabilizar a estrutura de uma bacia.


Segundo pesquisadores, ao reduzir a quantidade de pequenos nativos, o jaguar mexe em uma engrenagem vital: sem o alimento de base, os grandes predadores originais daquela bacia também podem sofrer com a escassez de comida, o que, no longo prazo, interfere no crescimento dos peixes que os pescadores esportivos tanto buscam como troféus.



O Tambaqui no Araguaia


Foto: Diego Tirira / Wikimedia Commons

Por outro lado, o tambaqui é um verdadeiro gigante na Bacia Amazônica. Na calha do Rio Amazonas e em seus tributários, ele desempenha um papel ecológico fundamental, especialmente na dispersão de sementes.


Por ser um peixe de força bruta incomparável e excelente esportividade, o tambaqui é um dos grandes favoritos dos pescadores brasileiros. Mas, recentemente, a expansão da espécie e suas aparições frequentes no Rio Araguaia tornaram-se alvo de preocupação por parte de especialistas.


“Para o tambaqui, não há registros históricos na bacia do Araguaia, o que sustenta a ideia de que ele não é nativo dali. O conhecimento que nós temos hoje é de que ele apareceu na região há cerca de 15 anos, mas foi mais recentemente que a espécie começou a aumentar sua população”, afirmou o biólogo e professor da UERJ, Fabrício Teresa.


Com um hábito alimentar oportunista, o tambaqui consome de tudo um pouco: frutas, insetos, plantas e outros animais aquáticos, como tartarugas, segundo pesquisas mais recentes. As pesquisas apontam, ainda, que ele tem se alimentado significativamente de zooplâncton, que consiste em pequenos organismos invertebrados (como crustáceos e rotíferos) que servem de alimento para alevinos e peixes jovens de outras espécies.

“Se o tambaqui está consumindo muito zooplâncton, ele pode estar afetando uma parte importante do ecossistema e causando um efeito sobre a base da cadeia alimentar. Na base, nós temos as algas e as plantas, depois o zooplâncton, os insetos, os peixes pequenos e os peixes maiores... E o tambaqui come um pouquinho de cada uma dessas coisas”, explicou o professor.


Além da disputa por recursos na base da cadeia alimentar, outro ponto observado pelos cientistas no Araguaia é a hibridização. O tambaqui pode se reproduzir com a caranha, uma espécie nativa do rio, gerando a tambatinga. Como esses híbridos são férteis, novos cruzamentos podem ocorrer, gerando debates sobre a preservação da pureza genética da caranha local. 


O cenário atual mostra a complexidade da gestão dos nossos rios. Se por um lado a ciência monitora de perto as transformações na fauna e na flora para garantir a sustentabilidade dos ecossistemas, por outro, a presença de peixes como o tambaqui movimenta o turismo, impulsiona a economia ribeirinha e traz uma esportividade única para a pesca na região.


Diante disso, é preciso estar atento às regulamentações de cada estado e praticar a atividade de forma consciente. Compreender o comportamento das espécies e acompanhar as orientações dos órgãos ambientais e dos pesquisadores é fundamental para que a pesca esportiva e a saúde dos nossos rios sigam caminhando juntos.


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