Crianças mostram preocupação com lixo nas águas

Segundo pesquisadores, entre os resíduos mais encontrados nas águas de todo o mundo estão os plásticos

Por Priscila Gomes - 15/10/2020 em Notícias / Meio Ambiente - atualizado em 19/10/2020 as 16:34

Toda semana, recebemos sugestões de pautas dos espectadores da Fish TV. Uma, em especial, nos chamou a atenção: era um vídeo que mostrava a pequena Isadora em um barco preocupada com o lixo que ela estava vendo em volta. Além de recolher alguns resíduos, ela dá uma boa lição para a sociedade: 


Inspirados no vídeo que o pai da Isadora enviou para o Jornalismo da Fish TV, fomos atrás de pesquisadores para conversar sobre o problema do lixo nas águas. Entrevistamos a professora Maira Carneiro Proietti, do Laboratório de Ecologia Molecular Marinha do Instituto de Oceanografia, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Confira trechos do bate-papo: 

Fish TV -   Em todo o mundo é observado que os plásticos predominam o lixo encontrado em linhas de costa, no fundo e superfície dos oceanos. Por que esse resíduo é o mais encontrado? 

 Prof. Maira - Isso acontece devido ao baixo custo de produção, durabilidade e versatilidade dos plásticos. A produção e, consequente, descarte tem aumentado exponencialmente e esse material pode compor até 99% dos resíduos encontrados. Os plásticos entram no oceano direta ou indiretamente através de vias continentais e marinhas. 

Estima-se que cerca de 80% do lixo que entra no ambiente marinho vem de fontes continentais, devido à má gestão de resíduos, uso recreativo de praias e disposição acidental ou intencional em terra com posterior transporte por sistemas de drenagem para o mar. Fontes de lixo no oceano incluem petrechos de pesca abandonados, perdidos ou descartados, operações offshore, perdas de carga e resíduos gerais de embarcações. 

 Fish TV - Quais principais prejuízo que os animais que ingerem plástico podem ter?

 Prof. Maira - Os plásticos no mar podem causar diversos impactos. Os mais visíveis são aqueles que afetam fisicamente a fauna marinha, como enredamento e emaranhamento em petrechos perdidos ou descartados (conhecido como pesca fantasma). Essa pesca fantasma pode causar lesões, perda de mobilidade, asfixia, afogamento e morte.

 Fish TV - A ingestão de plástico já foi registrada por várias espécies? 

Prof. Maira - Já foi registrada para centenas de espécies, desde pequenos organismos do zooplâncton, invertebrados como moluscos e crustáceos, peixes, aves, tartarugas e até o maior animal do mundo: a baleia-azul. Essa ingestão pode levar ao bloqueio ou lesão do trato digestivo, sensação de saciedade sem alimento, alterações de flutuabilidade e comportamento, e acarretam muitas vezes na morte dos indivíduos. 

Efeitos indiretos incluem potencial acúmulo de compostos tóxicos (usados na fabricação dos produtos plásticos e/ou adsorvidos a eles do ambiente) nos tecidos dos consumidores e sua transferência entre níveis tróficos, impactando teias alimentares. 

 Fish TV - Em uma das pesquisas, vocês trabalharam com microplásticos ingeridos por crustáceos (camarão-rosa e siri-azul) do Estuário da Lagoa dos Patos (RS) e na área da Praia do Cassino, no extremo sul do Brasil. Quais foram os principais resultados da pesquisa? 

 Prof. Maira - Os microplásticos são aqueles com tamanho entre 0.001 e 5mm, que podem ser produzidos já nesse pequeno tamanho ou resultarem da quebra de plásticos maiores. 

Avaliamos os tratos digestórios de 110 camarões rosa e 132 siris-azuis, com presença de microplástico em aproximadamente 33% dos camarões e siris. Os principais tipos de microplásticos encontrados nos animais foram as linhas e fios. 

Essas informações ajudam a entender o problema para subsidiar ações de prevenção e mitigação, identificando suas possíveis fontes e auxiliando no direcionamento de estratégias. É importante que nós como sociedade tenhamos conhecimento dos impactos do lixo plástico no oceano para repensarmos o nosso consumo, lembrando do alimento mais seguro oriundo da aquicultura, e cobrarmos medidas efetivas do poder público.

 Veja a notícia na TV:


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