ALTERAÇÕES EM PEIXES NO ESPÍRITO SANTO LEVANTAM ALERTA SOBRE IMPACTOS AMBIENTAIS

Estudo encontrou anomalias em 60,5% dos exemplares analisados na região de Conceição da Barra e investiga uma possível relação com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG)

Por Alice Mesquita - 05/10/2026 em Notícias / Meio Ambiente

Uma pesquisa realizada no litoral do Espírito Santo voltou a levantar questionamentos sobre os impactos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), considerado um dos maiores desastres ambientais do Brasil.

O estudo, publicado na revista Ocean and Coastal Research, identificou uma frequência elevada de alterações em estruturas internas de peixes da espécie Stellifer naso, também conhecida como cangoá.


Foto: Caio Henrique G. Cutrim/FishBase

Pesquisadores analisaram 38 exemplares coletados na região da foz do Rio São Mateus e encontraram deformações em 23 deles, representando 60,5% dos corpos analisados e resultando no maior índice de anomalias já registrado em peixes costeiros brasileiros.


A coleta ocorreu em maio de 2022, próximo a Conceição da Barra-ES, em uma área que recebe influência tanto das águas do rio quanto do ambiente marinho.

Essa localização chamou a atenção dos pesquisadores por reunir condições que podem favorecer o contato dos animais com diferentes características ambientais, conforme explicou Jonas Andrade, biólogo e pesquisador, em entrevista à Fish TV. 

"Essa foz tem uma certa amplitude, uma abertura que possibilita a entrada dessa pluma do ambiente marinho para o ambiente do estuário. E, sendo essas espécies estuarinas, o peixe está ali nesse ambiente. Então, é uma área que tem uma possibilidade de entrada desse material contaminante", disse.

As deformações foram encontradas nos otólitos, estruturas calcificadas localizadas no ouvido interno dos peixes que exercem funções relacionadas ao equilíbrio, à orientação e à percepção de sons.

Alterações nessas estruturas podem estar associadas a diferentes fatores ambientais e servir como indicativo de estresse nos animais.

"Independente da porcentagem, qualquer anomalia neste sentido vai impactar de certa forma na percepção e no comportamento de natação dos peixes, podendo indicar um ambiente estressante" afirmou Jonas. 


O que os pesquisadores encontraram

As alterações observadas não eram iguais em todos os exemplares. Foram identificadas projeções e deformações em diferentes regiões dos otólitos, com variações de tamanho e complexidade.

O resultado chamou atenção principalmente pela frequência. Em estudos anteriores realizados com diferentes espécies de peixes da costa brasileira, os índices de alterações nos otólitos foram significativamente menores. 


Foto: Rafael Lima Oliveira

Entre os trabalhos utilizados na comparação pelos pesquisadores, por exemplo, um estudo com Cathorops spixii, espécie de bagre, registrou anomalias em 27,11% dos exemplares.

A ocorrência elevada fez os pesquisadores procurarem possíveis fatores ambientais que poderiam ajudar a explicar o fenômeno.


A possível relação com o desastre de Mariana

Uma das hipóteses levantadas pela pesquisa é a de que as alterações possam estar associadas aos impactos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), ocorrido em 2015. Os rejeitos chegaram ao Rio Doce e, posteriormente, ao ambiente marinho.

A região onde os peixes foram coletados apresenta uma característica importante para essa investigação: a foz do Rio São Mateus sofre influência tanto do ambiente fluvial quanto do marinho.

Além disso, o Stellifer naso vive próximo ao fundo, ficando em contato com sedimentos que podem carregar diferentes materiais.

Isso, porém, não significa que o estudo tenha comprovado que o desastre provocou as anomalias. Os próprios pesquisadores tratam essa relação como uma hipótese que ainda precisa ser investigada. 

“É válido dizer que não tem uma relação de causa e efeito propriamente dita, estamos fazendo uma inferência, excluindo outras possibilidades de anomalias. O ideal seria ter um material comparativo antes do desastre, mas não havendo essa possibilidade, agora é seguir com a análise da química do otólito" disse o biólogo. 



Próximos passos da pesquisa

A ideia, agora, é verificar se há sinais de elementos ou contaminantes incorporados às estruturas e, a partir disso, entender se existe alguma relação entre a composição química e as alterações morfológicas encontradas.

Outras espécies também podem ser avaliadas, assim como a própria região pode passar por novos períodos de monitoramento. A comparação ao longo do tempo ajudaria a entender se as anomalias permanecem, diminuem ou apresentam alguma mudança.

"Os próximos passos são seguir com a verificação desse sinal químico, fazer as análises químicas para verificar mesmo quanto a gente tem, ou se tem, um sinal desses contaminantes  e a partir daí estabelecer uma sequência de estudos se for necessário". 

Com isso, o estudo abre uma frente de investigação sobre a saúde dos peixes em uma área que sofreu impactos ambientais importantes. 

A continuidade do monitoramento pode ajudar a identificar possíveis efeitos de longo prazo e a compreender melhor as condições dos ecossistemas costeiros no Espírito Santo.


Foto da Capa: Rafael Lima Oliveira


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