Barcelos, no interior do Amazonas, é mundialmente reconhecida como um dos melhores lugares do planeta para a prática da pesca esportiva. O município, que é o maior do estado em extensão territorial, atrai anualmente milhares de turistas brasileiros e estrangeiros em busca dos gigantes tucunarés-açus.
No entanto, o futuro dessa atividade, que é o verdadeiro motor econômico da cidade, está no centro de um debate complexo e urgente: a ampliação das áreas de demarcação de terras indígenas na região.
O medo de um colapso econômico levou milhares de pessoas às ruas no mês passado.
O protesto reuniu empresários e políticos, além de trabalhadores ribeirinhos e até parte da população indígena local, que também depende diretamente dos recursos gerados pela pesca esportiva para o seu sustento.
Para se ter uma ideia da dimensão do que está em jogo, o projeto prevê o reconhecimento de mais de quatro milhões de hectares. A área abrange os principais afluentes do Rio Negro, exatamente onde ocorrem as grandes expedições de turismo de pesca.
A disputa tem dividido opiniões e gerado um clima de muita incerteza. De um lado, a medida busca garantir os direitos dos povos originários e a proteção do território. Do outro, gera medo em toda a cadeia produtiva, que teme o fim de diversas atividades nos rios e um verdadeiro colapso na economia local.
O temor de um colapso econômico
Foto: Valter Ernandes.
Hoje, a pesca esportiva é, indiscutivelmente, a principal fonte de sustento do município de Barcelos. A atividade, de acordo com a Secretaria de Turismo de Barcelos, movimenta mais de 100 milhões de reais por temporada e garante a sobrevivência de milhares de famílias, gerando empregos diretos e indiretos para guias de pesca esportiva, piloteiros, camareiras, cozinheiras, além de aquecer o comércio local e a rede hoteleira.
Ainda segundo dados da Secretaria de Turismo de Barcelos, caso a demarcação seja aprovada e as restrições mais severas sejam aplicadas, o município poderia sofrer um baque sem precedentes: a cidade poderia cair de mais de sessenta operações de pesca esportiva para apenas quatro ou, no máximo, oito, nos afluentes do Rio Negro.
O secretário de Turismo, Vadilson Gonçalves, alerta para o impacto desastroso dessa redução. Sem o fluxo normal de turistas, toda a rede de serviços da cidade entraria em declínio. A vereadora Raycka Lacerda também reforça essa preocupação, destacando que a falta de transparência no processo e a ausência de uma consulta pública ampla afligem a população. Segundo ela, além dos empresários, o munícipe que vive do turismo se sente diretamente ameaçado.
Por isso, o grande protesto no mês de maio agitou as ruas de Barcelos.
A incerteza no setor turístico
Foto: Valter Ernandes.
Quem opera na linha de frente do turismo vive dias de apreensão. Os proprietários de pousadas e barcos-hotéis, responsáveis por atrair e acomodar pescadores do mundo inteiro, temem pelo futuro de seus negócios e de seus funcionários.
Eric Hanai, proprietário do barco-hotel Pro Tucuna, resume o sentimento do setor. Caso o acesso aos principais afluentes do Rio Negro seja restrito, haverá uma superlotação no leito principal do rio e uma inevitável fuga de turistas para outras regiões, quebrando a engrenagem que sustenta a cidade.
É importante lembrar que a pesca esportiva já é uma atividade de baixo impacto ambiental que, por si só, atua como uma barreira de proteção contra a pesca predatória e o desmatamento.
O lado indígena: direitos e acordos de manejo
Do outro lado da discussão, as organizações indígenas rebatem as manifestações. Entidades como a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) classificaram as recentes manifestações em Barcelos como uma "campanha antidemarcatória", organizada por setores políticos e empresariais com o intuito de continuar explorando os territórios indígenas.
As lideranças dizem que a demarcação é uma garantia constitucional essencial para proteger o território contra invasores, além de garantir a preservação da natureza e assegurar a sobrevivência física e cultural de diversas etnias, como os Yanomami e os Baré.
A legislação brasileira permite, sim, a continuidade do ecoturismo e da pesca esportiva dentro de terras demarcadas. No entanto, as organizações exigem que isso seja feito estritamente por meio de acordos de manejo sustentáveis, com regras claras e, fundamentalmente, com o protagonismo e a participação direta das comunidades originárias na gestão e nos lucros da atividade.
O Fish News buscou ouvir a FOIRN em uma entrevista em vídeo, mas, segundo eles, após cuidadosa análise, optaram por não participar. Em nota, explicaram que, para eles, o clima atual na cidade é de intensa polarização e desinformação, e que uma entrevista editada poderia não refletir a complexidade das questões envolvidas.
A federação ainda disse preferir focar no diálogo direto com as comunidades e com os órgãos competentes.
O futuro: diálogo e preservação
Foto: Valter Ernandes.
Enquanto o processo de demarcação segue seu rito na Justiça, nas instâncias administrativas da FUNAI e nas mesas de debate em Brasília, a vida em Barcelos não pode parar. As autoridades locais garantem estar buscando as vias legais e o diálogo para proteger a cadeia produtiva da região.
Para o pescador esportivo, o recado é claro: a temporada está chegando e o paraíso do tucunaré-açu continua de portas abertas!
O município segue sendo o maior e melhor destino de pesca esportiva do Brasil. Continuar viajando para Barcelos é garantir a pescaria dos sonhos, além de trazer uma força ainda maior para manter a economia local girando, valorizando o trabalhador ribeirinho e provando, na prática, que a pesca esportiva é e sempre será uma grande aliada da preservação ambiental e do desenvolvimento sustentável da Amazônia.
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