Na Amazônia, rios e lagos têm uma importância que vai muito além da paisagem. Esses ambientes estão diretamente ligados à alimentação, ao transporte, ao trabalho e à rotina de milhares de pessoas.
Também são fundamentais para a pesca esportiva, que movimenta diferentes setores da economia e depende diretamente da conservação dos ambientes aquáticos.
Nos últimos anos, porém, eventos climáticos extremos têm alterado a dinâmica desses ecossistemas. As secas severas registradas em 2023 e 2024 expuseram parte desses impactos. No Lago de Tefé, no Amazonas, por exemplo, o superaquecimento da água esteve associado à morte de mais de 200 botos durante a seca extrema de 2023. O cenário reforçou a necessidade de compreender melhor como os lagos respondem às mudanças climáticas e quais são as consequências para quem depende deles.
Foi nesse contexto que surgiu o projeto Lagos Sentinelas da Amazônia, coordenado pelo Instituto Mamirauá que reúne pesquisadores, gestores públicos e comunidades tradicionais em uma iniciativa de acompanhamento das condições ambientais e das transformações socioambientais em cinco lagos da região.
São eles: Lago de Tefé, Lago de Coari, Lago de Janauacá, Lago de Serpa e Lago Grande de Monte Alegre, sendo quatro no Amazonas e um no Pará.
POR QUE “LAGOS SENTINELAS”?
O nome do projeto está relacionado à própria capacidade desses ambientes de refletir as transformações que acontecem ao seu redor.
Os lagos recebem, acumulam e refletem diferentes características do ambiente em que estão inseridos. Por isso, podem funcionar como verdadeiros indicadores das mudanças que acontecem na região, especialmente diante de eventos climáticos extremos.
A proposta é acompanhar essas transformações ao longo do tempo e reunir informações que permitam entender como os lagos se comportam em diferentes condições.
PESQUISA CIENTÍFICA E CONHECIMENTO DAS COMUNIDADES
O projeto combina diferentes frentes de atuação. Uma delas está relacionada ao acompanhamento das condições ambientais dos lagos, com coleta de dados sobre características da água e outros parâmetros importantes para compreender a dinâmica desses ambientes.
Pesquisadores acompanham os níveis dos cinco lagos por meio de sensores e realizam coletas para avaliar a qualidade e a temperatura da água. Além disso, sensores foram instalados para acompanhar o nível, o oxigênio dissolvido e a temperatura nos cinco lagos.
Mas a proposta não se limita aos dados coletados por equipamentos.
O conhecimento das comunidades que vivem nesses territórios também é considerado parte fundamental da pesquisa. E, para isso, são realizadas oficinas de diagnóstico participativo com comunidades ribeirinhas, quilombolas e tradicionais.
Durante os encontros, pesquisadores e moradores compartilharam experiências relacionadas às mudanças ambientais, ao uso da água, ao saneamento, aos recursos naturais e às condições de vida nas comunidades.
A partir dessa escuta, foram construídos diagnósticos socioambientais específicos para os territórios, reunindo demandas e propostas de soluções que podem contribuir para futuras ações e políticas públicas.
IMPACTOS TAMBÉM CHEGAM À PESCA
A dinâmica dos lagos tem relação direta com a atividade pesqueira. Portanto, mudanças bruscas no ambiente podem alterar as condições encontradas pelos pescadores e a própria distribuição dos peixes.
Para a pesca esportiva, compreender essas transformações também é importante. O comportamento dos peixes está ligado às condições ambientais, e informações mais precisas sobre os ambientes aquáticos podem ajudar a entender as mudanças observadas nas pescarias ao longo do tempo.
Assim, o acompanhamento contínuo permite construir uma base de informações sobre o comportamento dos lagos. Períodos extremos podem ser comparados com condições observadas anteriormente, ajudando pesquisadores e comunidades a identificar alterações e compreender seus possíveis impactos.
UM ACOMPANHAMENTO QUE VAI ALÉM DOS DADOS
Transformando os lagos em pontos permanentes de observação das mudanças ambientais e aproximando esse trabalho das comunidades que dependem deles, o Lagos Sentinelas trabalha para ampliar a compreensão sobre os impactos das mudanças climáticas na Amazônia.
Para quem vive da água, acompanha a pesca ou depende desses ambientes para o trabalho e para a alimentação, compreender essas transformações significa também ter mais informações para lidar com uma realidade que já está mudando.
E, na pesca esportiva, conhecer melhor essas mudanças ajuda a entender um dos elementos mais importantes de qualquer pescaria amazônica: o ambiente onde ela acontece.
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